Sobre o livro
O ABUSO DO PODER NA PSICOTERAPIA
Autor: Adolf Guggenbuhl – Craig
Editora Paulus
O que é psicoterapia?
A psicoterapia é o encontro de duas psiques, do terapeuta e do paciente, para que o processo terapêutico ocorra é de suma importância que ambas entrem em contato, e assim desenvolvam um diálogo interno capaz de proporcionar o encontro tão esperado com os recursos internos, que possibilitam que as feridas sejam curadas.
No livro “O Abuso do Poder na Psicoterapia”, Roberto Gambini ressalta no prefácio que o assunto central da obra “ é o mal que o analista involuntariamente pode causar a seus pacientes quando se propõe a ajudá-los” (Guggenbuhl, C. 2004, p. 7).
Livrai-nos do Mal? Na introdução o autor levanta a questão dos “danos que as profissões de ajuda podem causar devido ao próprio desejo de ajudar” (Guggenbuhl, C. 2004, p. 9).
O analista, bem como outras profissões da área de saúde tem como objetivo auxiliar no desenvolvimento da saúde mental e física. Trabalho esse que deve ter como objetivo final pessoas saudáveis, felizes e ajustadas dentro do que é socialmente aceito no contexto cultural em que vive.
O ponto de partida do trabalho do psicoterapeuta está relacionado diretamente a “ajudar” o outro a lidar com as feridas que o levam a procurar a cura. Por esse motivo o psicoterapeuta pode inconscientemente exercer sobre o paciente questões próprias ligadas ao abuso do poder, visto que esse tem como manipular o processo terapêutico em seu próprio benefício.
Estar em contato com o outro nesse processo requer entrar em contato consigo mesmo, com suas próprias feridas para que os resultados sejam positivos, caso isso não aconteça e o terapeuta sinta-se superior ao paciente, deixa então sua sombra assumir de forma negativa a condução do processo.
Percebemos a fragilidade do trabalho psicoterápico quando nos deparamos com o exercício de poder sobre o paciente. Sobrepor ao outro aquilo que está constelado em si, seus desejos e vontades, colocam em demasiado risco o processo, porque assim o outro acaba se submetendo não ao que é seu, mas sim do próprio terapeuta. Existe uma projeção de conteúdos do próprio analista sobre o paciente, o que pode ocasionar o bloqueio do possível encontro com seus próprios conteúdos, necessários para que a cura possa acontecer.
O analista está em contato consciente com o querer servir, ajudar seu paciente em seu sofrimento, conotando uma posição altruísta , porém no polo oposto inconsciente se constela o “charlatão” que manipula o processo psicoterápico em seu próprio benefício.
O relacionamento entre analista e paciente gera fantasias que também fazem parte do processo, afinal são duas psiques que entram em contato em sua totalidade. Essas fantasias podem ser utilizadas de modo saudável quando as percebemos na relação de transferência e contratransferência, o analista devolve ao paciente esses conteúdos que fazem parte dele, ele é visto como ele é, com todas as suas emoções e sentimentos, é um ser dinâmico. Assim, no processo da psicoterapia lidamos com o dinamismo da psique, sua capacidade de criar, de se reinventar, quando o analista não o faz deixa novamente sua sombra atuar sobre o paciente. A contratransferência aqui interrompe o processo criativo da psique do paciente e o reduz as fantasias do analista projetadas sobre ele. O analista também pode criar fantasias destrutivas que o levam a sentir um certo prazer quando se depara com as potencialidades negativas estimuladas no paciente . Não podemos pensar em projeção, mas sim num tipo de “imaginação ativa” que gira em torno do potencial destrutivo do paciente.
Incidindo novamente na sombra do “charlatão”, o analista faz de tudo para manter o paciente sob seu domínio, quer sempre exclusividade, precisa disso para “massagear seu ego”, mantendo a onipotência. Assim, para não entrar em contato com suas próprias feridas, cisão do arquétipo terapeuta – paciente , o analista passa a viver pelo próprio paciente para ser poupado do próprio sofrimento o que leva a consequentemente fazer com que o paciente viva suas experiências de acordo com as expectativas do analista. Essa vivência vicária estanca o desenvolvimento psíquico do analista, ele perde sua energia e originalidade criativa.
A sexualidade também é abordada como tema importante pelo autor, visto que existe um relacionamento entre analista e terapeuta, existe um fluxo emocional entre ambos que é necessário para o avanço do processo psíquico. Aqui nos deparamos com as questões ligadas à sexualidade, as fantasias que comumente aparecem entre pacientes e analistas devem ser tratadas como expressões físicas de um relacionamento, observar as polaridades Eros e ódio que podem ser expressados simbolicamente na relação, predomínio de um ou de outro.
O despertar do desejo sexual pelo analista como recurso para manter o paciente também é um “truque do charlatão”. Não podemos deixar de nos ater a importância que remete esse desejo despertado na relação, ele pode ser a expressão da existência de um relacionamento positivo ou negativo entre analista e paciente. É de suma importância que o analista observe como se constelou esse desejo, a partir de forças destrutivas, onde um deseja a destruição do outro expressando um relacionamento destrutivo ou de aspectos positivos que podem expressar um relacionamento frutífero e ajudar no desenvolvimento do processo.
Na relação terapêutica o arquétipo terapeuta- ferido deve ser constelado quando isso não acontece temos uma cisão do arquétipo, o terapeuta não entra em contato consigo mesmo, com suas feridas fazendo que a relação entre ambos não aconteça, sente-se livre das feridas que nele não existem, estão presentes apenas no paciente; o médico reprime um polo arquetípico.